HISTÓRIA DA MÚSICA PORTUGUESA

 

 

 

SÉCULO XVIII

(música de Carlos Seixas "Sinfonia em Si bemol")

 

 

D. João V

 A subida ao trono do rei D. João V, em 1707, marca o início de uma época de renovação da vida musical portuguesa. Essa renovação surge sob o signo da música italiana, mais precisamente do barroco religioso romano. Data desta época a reforma da Capela Real, que foi elevada à dignidade de Sé Patriarcal, e à criação em 1713 do Seminário da Patriarcal que virá a tornar-se na principal escola de música deste século.

Devido às riquezas que provêm do Brasil (ouro, pedras preciosas, etc.) e, tendo em conta que o rei era casado com uma princesa austríaca habituada a ouvir boa ópera na corte de Viena, D. João V opta por mandar bolseiros estudar em Itália. São disso exemplo os compositores:   

António Teixeira

Francisco António de Almeida

A difusão em Portugal, do mais importante género musical italiano do século XVIII - a ópera - não se deu a partir da corte, mas sim de dois teatros públicos: a Academia da Trindade e o Teatro da Rua dos Condes que lhe viria a suceder. Em 8 anos, apresentaram óperas sérias representadas por companhias italianas, perante um público predominantemente aristocrático que tinha acesso muito limitado às raras representações de óperas cómicas no Paço da Ribeira

D. João V não manifestou grande interesse pela ópera italiana. Ao longo de todo o seu reinado, encontramos somente notícia da representação de umas 6 óperas na corte, todas do género cómico, feita pelos cantores da Capela Real em palcos provisórios montados no Paço da Ribeira durante o Carnaval.  No entanto, foi no Paço da Ribeira que se estrearam as primeiras óperas de um compositor português: Francisco António de Almeida

Mais ou menos na mesma altura em que chega a Portugal a ópera italiana, o Teatro do Bairro Alto começa a representar espectáculos de bonecos ou de marionetas igualmente designados como óperas, com música de António Teixeira e textos da autoria do advogado judeu António José da Silva.  Mas esta movimentação teatral rapidamente cessa com a proibição do próprio D. João V em 1742. O rei teve um ataque que o deixou hemiplégico e com um terror religioso que o levou a proibir todas as representações teatrais em Lisboa. Só as oratórias e festas de Igreja eram permitidas.

A música instrumental, menos cultivada neste tempo entre nós, teve porém um representante de alto mérito: Carlos Seixas. As sonatas de Seixas representam, juntamente com as do seu colega Domenico Scarlatti, a primeira fase de desenvolvimento da sonata para tecla na transição do Barroco final para o período pré-clássico.

 

D. José

Com a subida ao trono do rei D. José, em 1750, inicia-se um novo capítulo da nossa história operática. Logo no início do seu reinado, D. José começou a organizar um verdadeiro estabelecimento operático de corte, fazendo contratar em Itália alguns dos melhores cantores do tempo, assim como um arquitecto teatral e o compositor napolitano Davide Perez. Foram construídos vários teatros, um de carácter provisório, no Paço da Ribeira, outros dois de carácter permanente no Palácio de Salvaterra de Magos e na Quinta de Cima da Ajuda e, sobretudo, um Teatro de Estado "Casa da Ópera" (conhecida modernamente como Ópera do Tejo). Este último Teatro estreou-se a 31 de Março de 1755 com uma obra de Davide Perez, mas ruiu uns meses mais tarde no terramoto de 1 de Novembro de 1755. 

Na segunda metade do século XVIII a ópera tornou-se, entre nós, o género mais importante e influente. Reconstruídos, após o terramoto, o Teatro do Bairro Alto e o Teatro da Rua dos Condes, recomeçaram os espectáculos alternando teatro declamado em português com óperas italianas e bailados, desta vez representados por companhias lusitanas. No Porto, encontramos igualmente representações de ópera italiana no chamado Teatro Público ou Teatro do Corpo da Guarda

Após o terramoto, os espectáculos de ópera são retomados numa escala mais modesta. No Teatro da Ajuda, nos teatros provisórios que se montavam ocasionalmente durante o verão, no Palácio de Queluz e ainda no Teatro de Salvaterra durante o carnaval. Continuou-se a contratar vozes italianas, sendo as vozes femininas substituídas por castrados, na continuação de uma tradição romana que datava do reinado de D. João V. De Itália vinham também os bailarinos e os instrumentistas, os instrumentos e as partituras e os próprios adereços e guarda-roupa das óperas. Agora, o repertório dos teatros de corte deixa de ser essencialmente constituído por óperas sérias, passando a partir de 1763 a ópera cómica ou buffa a tornar-se mais popular, de acordo com uma tendência que se generalizara entretanto em toda a Europa.

 

D. Maria I

No campo da ópera, a contribuição dos compositores portugueses é muito menos significativa do que no campo da sereneta e da oratória que, em parte por motivos de economia, substituíram a ópera  como géneros favoritos da corte, no reinado de D. Maria I, uma vez que dispensavam os cenários e os guarda-roupa. Destacam-se os compositores:

João Cordeiro da Silva

Pedro António Avondano

João de Sousa Carvalho.

Ao nível da música religiosa, o processo de italianização ir-se-á progressivamente estendendo às diversas igrejas da capital e a todas as dioceses do país, em resultado da grande influência exercida pela Capela Real e Patriarcal e do seu Seminário. Do mesmo modo que aconteceu em toda a europa, a influência operática italiana determinou, em larga medida, o estilo da música religiosa portuguesa produzida neste século. Destaca-se o nome de:

Luciano Xavier dos Santos

A partir da última década deste século, a vida musical passa a ser dominada pela actividade dos teatros de ópera que surgem nas duas maiores cidades do país: Lisboa e Porto. A abertura dos teatros de S. Carlos (1793) e de S. João (1798) marcam o aparecimento de casas de espectáculo que se mantiveram até ao final do século seguinte. Constituídos por sociedades de capitalistas ou subscrições públicas de acções, esses teatros eram alugados a empresários que montavam toda a temporada e dirigiam a companhia lírica, formada essencialmente por cantores italianos, recebendo simultaneamente um subsídio do Estado. Com a inauguração do Teatro de S. Carlos, termina finalmente o ciclo da ópera de corte, que havia durado uns 60 anos. Nenhum dos teatros reais sobreviveu até aos nossos dias. 

Os únicos compositores portugueses, que tiveram óperas suas representadas no Teatro de S. Carlos nos primeiros anos do seu funcionamento, foram dois dos seus directores musicais:

António Leal Moreira

Marcos Portugal

Em comparação com a música vocal profana e religiosa, a quantidade de música instrumental portuguesa que chegou até nós da segunda metade do século XVIII, é relativamente pequena. De destacar o já citado Pedro António Avondano. A maior parte das suas obras conserva-se em bibliotecas estrangeiras e permanece modernamente inédita. 

Nas últimas décadas do século XVIII a prática dos concertos públicos e privados e da música doméstica, tiveram um desenvolvimento crescente entre nós. Nos salões aristocráticos e burgueses, adquire agora especial importância um género de canção sentimental designado por Modinha, que parece ter sido originariamente importado do Brasil, pela mão do poeta e cantor mulato Domingos Caldas Barbosa. A ela se encontra associado um outro tipo de canção dançada de origem afro-brasileira designado por Lundum, caracterizada pelos ritmos sincopados e pela sua voluptuosidade. Na primeira metade do século XIX, o estilo musical da modinha será cada vez mais  influenciado pelo estilo da ópera italiana. À modinha se tem atribuído o papel de antecessora do fado, género esse que não aparece claramente definido antes do segundo terço do século XIX. Como compositor deste género, há que destacar os nomes de:

Marcos Portugal

António Leal Moreira